quarta-feira, 28 de março de 2012

Chapeuzinho Vermelho [Millôr Fernandes]

Foto: styletrance/Flickr
Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios. Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e... (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores — o lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo que andar na floresta sozinha, - natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.).
Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: "Onde vais, linda menina?" Respondeu Chapeuzinho Vermelho: "Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde".
Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: "Psychopathology Of Everiday Life", The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez — o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado — e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó.
Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de Otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrênica, débil mental e paranóica pequenas doenças que dão no cérebro, parte-súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em "Sexual Behavior in the Human Female". W. B. Saunders Company, Publishers.) Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranqüila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.

Extraído do livro "Lições de Um Ignorante", José Álvaro Editor - Rio de Janeiro, 1967, pág. 31


"A viagem é a recompensa"


Um resumo da biografia Steve Jobs, de Walter Isaacson

Steve Jobs é uma lenda. Mais que o CEO da Apple, foi um gênio inventivo que extraiu da imaginação criações absolutamente extraordinárias, às vezes mágicas. Quando as pessoas as olhavam, diziam Quem é que precisa disso?. Porém, acabavam descobrindo que não sabiam como viveram, até o momento, sem esta ou aquela maravilha.
Eu sempre li muito sobre Jobs e a empresa de sucesso duradouro da qual era cofundador, a Apple. Mas jamais tinha me passado pelos olhos algo tão profundo quanto Steve Jobs, livro escrito por Walter Isaacson (que também escreveu sobre outros dois gênios: Albert Einstein e Thomas Edson). É uma biografia das mais interessantes e instigantes que já vi. Mostra o revolucionário da computação pessoal (e outras cinco indústrias: o cinema de animação, a música, a telefonia celular, a computação em tablet e a edição digital) como ninguém ainda fez, de maneira imparcial e impecável, em uma biografia autorizada e com a colaboração de Jobs. São mais de 40 entrevistas realizadas ao longo de dois anos, além de conversas com amigos, familiares, adversários e concorrentes.
Espiritualizado, impulsivo, impetuoso, teimoso, temperamental, controlador e chorão – esse era Jobs: um ser humano absolutamente normal e apaixonado. Talvez todas essas características, que por vezes incomodaram algumas pessoas, fizeram com que ele se tornasse um cara muito a frente do seu tempo.
Não freqüentou a universidade até o fim, mas sempre foi curioso, perfeccionista, inovador e ousado. Passou uma temporada na Índia, era vegano desde a adolescência, tomou LSD e aproveitou-se das viagens causadas pelo ácido para criar, já que era um verdadeiro artista.
Na garagem da casa de seus pais fundou a Apple em 1976, com seu amigo Steve Wozniac. Se dedicou de corpo e alma até o fim da vida. Foi Jobs que percebeu que o computador deveria estar ao alcance de todos. Se não fosse por Steve Jobs, provavelmente não estaríamos aqui, nem eu, nem você. Se ele não tivesse interferido no curso do planeta, a IBM, a Microsoft, a Xerox e a HP teriam transformado o computador em equipamento para utilização exclusiva dentro de empresas, tal como um grampeador ou um cesto de lixo.
Foi diferente porque sua preocupação dentro das empresas não era o lucro, mas as inovações, o design e a boa engenharia, tudo para nos satisfazer. Por ocasião do lançamento do iPhone, Jobs proclamou “estamos avançados 5 anos na telefonia”. Não poderia haver frase mais verdadeira. Somente agora, quase 5 nos depois, o Android consegue fazer algo semelhante ao smartphone da Apple. Mas jamais, jamais, vai conseguir um efeito tão hipnótico e apaixonante nas pessoas quanto o da Apple de Jobs.
Cada apresentação magistral de produto por Steve Jobs ocasionava um rebuliço em todos os meios de comunicação. Os lançamentos eram responsáveis por filas quilométricas. Até o cofundador da Apple, Wozniac, fazia plantão nas filas para adquirir o produto ao invés de pedir que lhe fosse entregue em casa.
Acredite: Jobs não fazia pesquisa de mercado. Seguia teimosa e insanamente a intuição, e sempre funcionou. Quando indagado acerca do assunto, respondeu: “As pessoas não sabem o que querem até ver o produto”. Acho que ele tinha razão. Eu mesma fui instada a adquirir um iPhone e simplesmente me negava, justificando que não encontraria tempo nem saberia utilizar todas as funções. Ledo engano. Agora não consigo viver sem meu iPhone e absolutamente TODAS as suas funcionalidades. Para se ter uma ideia, os produtos de Jobs são tão simples, que até uma criança analfabeta de 6 anos da Bolívia consegue manipular um iPad (essa história é verdadeira e está no livro).
Steve Jobs foi o livro que mais rápido eu li na vida – e eu leio muito. Queria terminar logo e, ao mesmo tempo, não queria que acabasse… simplesmente apaixonante. Recomendadíssimo. Como Jobs mencionava quando queria convencer a equipe a fazer algo novo: “A viagem é a recompensa”.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Soberania e cerveja no país do futebol


Desde de 2003 vigora no Brasil o Estatuto do Torcedor que, além de outras determinações, proibiu a venda de bebidas alcoólicas nos estádios, já que não foi possível frear a violência do torcedor em dias de partida de futebol e fiscalizar a venda. Em outros países, desenvolvidos, não há esse tipo de vedação.
Quando o Brasil foi escolhido como país sede da Copa do Mundo de 2014, iniciou-se uma verdadeira corrida a fim de que sejam cumpridas todas as exigências da FIFA para o mundial, desde a organização das cidades que serão sede dos jogos até a discussão acerca da venda de bebidas alcoólicas nos estádios.
O recado da FIFA foi dado por intermédio do seu secretário geral, o francês impertinente Jérôme Valcke: a venda de bebidas alcoólicas deve ser liberada nos estádios durante o mundial. Isso porque a maior patrocinadora da Copa é uma cervejaria, a Budweiser, do grupo belga-brasileiro InBev, parceira da FIFA desde 1986, cujo contrato firmado entre as partes aduz que esta deve ser a única cerveja vendida nos estádios sede da copa no mundo inteiro.
A partir da exigência da FIFA, a liberação da cerveja nos estádios virou artigo da Lei Geral da Copa e, consequentemente, assunto no país todo. O texto está sendo discutido na Câmara dos Deputados, onde o líder do governo Arlindo Chinaglia, repassando informações colhidas junto à Casa Civil, proclamou no último dia 14 que o Executivo vetaria o artigo pertinente à venda de bebidas alcoólicas. Na manhã do dia 15, porém, o deputado voltou atrás nas suas declarações. Por enquanto, a liberação de bebidas alcoólicas nos estádios faz parte da lei – e a crise nas negociações transparece.
Quem defende a venda de álcool nos estádios trata o caso não como de polícia, mas de saúde pública e educação. Considerando que boa parte do público da Copa do Mundo será formado por pessoas provenientes de países onde o consumo de cerveja é liberado, isso sem contar o rigoroso esquema de segurança preparado especialmente para o evento, acredita-se que não haverá problemas. Entretanto, o permissivo legal que contraria dispositivos do Estatuto do Torcedor, ainda que temporário, coloca em risco a soberania nacional.
Soberania é o poder do Estado dentro de seus limites. Esse poder é perpétuo, absoluto e não admite imposições, instruções ou encargos de outros. Quando o Brasil se candidatou para país sede da Copa do Mundo, tinha plena consciência da necessidade de se adequar. No entanto, a FIFA chegar ao ponto de exigir que uma lei seja mudada para que a entidade cumpra um contrato comercial – e o país se curvar a isso – é um perigoso exagero que abre precedentes.
No dia 16 de março a Presidente Dilma se reuniu com o presidente da FIFA, Joseph Blatter – ambos aliviados com a recente queda de Ricardo Teixeira do comando da CBF, que atravancava as negociações. Ao que tudo indica a Lei Geral da Copa não será mais objeto de modificação, especialmente que retire de seu texto a liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios.
A FIFA dá aos países o direito de sediar os jogos, faturar com turistas e outras atrações, mas em troca dita as regras do jogo. E o preço que se paga por isso é abdicar da qualidade máxima do poder social: a soberania.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Sempre aparece um J. Pinto Fernandes...

Dia 14 de março é o Dia Nacional da Poesia. Impossível não lembrar dos grandes: Pablo Neruda, Carlos Drummond de Andrade, Castro Alves, Mário Quintana... perdoem-me os demais poetas por não terem sido citados nessas curtas linhas, mas saibam que sua obra traz sentido, leveza, alegria e frescor à vida de todos que têm o prazer de sentir a sua expressão através do ritmo e da palavra cantada.

Tenho um carinho especial por Drummond. Acho que um mineiro sempre me encanta... não se pode olvidar, todavia, que eu tive um José (talvez mais que um...) na minha vida e participei de alguma Quadrilha. E também sempre aparece um "J. Pinto Fernandes"... Transcrevo os meus poemas favoritos no nosso Dia Nacional da Poesia: 


JOSÉ
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?


QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história. 



"Quadrilha": Drummond na voz de Drummond:

quinta-feira, 1 de março de 2012

À procura de João Gilberto


Foto: Lara Branco
“O Rio de Janeiro continua lindo” é a frase de Gilberto Gil na canção “Aquele Abraço” que tem tudo a ver com a Cidade Maravilhosa, em qualquer lugar e a qualquer tempo.

Lá não tem tédio, tampouco monotonia. As paisagens são tão deslumbrantes que a gente nem acredita. Dá vontade de dizer a uma das tantas pessoas que se amontoam no alto do Corcovado “me ajuda a olhar?”

O Rio é tudo isso e mais um pouco. É o local perfeito para se passar as férias dos sonhos, a lua-de-mel ou simplesmente pegar uma praia.

Nas minhas últimas férias, além de Minas Gerais, um dos meus destinos foi o Rio. Não espere de alguns cariocas a mesma hospitalidade de um mineiro, fato que me intrigou. Um taxista me explicou que eles são na verdade arredios e que têm medo de confiar nas pessoas por tudo que já passaram em se tratando de violência. Faz sentido.

Dá para andar tranquilamente pelas ruas, de dia ou à noite (com as precauções óbvias, claro). A pacificação das favelas proporcionou uma nova vida à cidade. Espero que a paz se eternize e não dure só até a Copa de 2014.

Escolhi Ipanema para me fixar naqueles cinco dias por ser o berço da Bossa Nova, da boemia, da alegria. Lá estão os milhares de bares que serviram de QG para os mestres Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto.

João Gilberto. Desde que pisei na rua Vinícius de Moraes, mais precisamente na “Toca do Vinicius”, uma loja de discos muito simpática em Ipanema, não parei de pensar nele...
Estava em busca de souvenirs quando me deparei com o livro “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto”, do jornalista alemão Marc Fischer. Imediatamente o resumo da orelha da capa aguçou a minha curiosidade.

Ipanema
Perguntei a Carlos Alberto Afonso, dono da loja, se esse livro me ajudaria a compreender o surgimento da Bossa Nova, já que um de seus criadores foi João Gilberto. Ele me explicou, com paciência e perfeição, do que se tratava a publicação. Mais curiosa fiquei. Foi para o meu carrinho de compras, junto com “Chega de Saudade”, de Ruy Castro, a bíblia da Bossa Nova.


O que eu queria na verdade era entender a razão de ter a Bossa Nova encantado tanto e ainda conseguir manter as pessoas enfeitiçadas, pois em Ipanema vi gente do mundo inteiro se dirigindo ao bairro justamente para se inebriar com o ritmo, cuja presença é constante, desde o restaurante mais sofisticado até a barraquinha na beira da praia. Lembro especialmente do entusiasmo pela Bossa Nova do londrino Phill e do colombiano Juan, com os quais tomei uma caipirinha no Garota de Ipanema.

Bar Garota de Ipanema (Lara Branco)
Comecei a ler o livro no avião enquanto retornava a Porto Alegre. A busca de Fischer por João Gilberto quando veio de Berlim para o Rio é uma aventura detetivesca, inclusive ele se autointitula “Sherlock Holmes” e tem um “Watson”. O autor anseia encontrar João Gilberto para fazê-lo tocar “Ho-ba-la-lá” em seu violão centenário, música que ouviu pela primeira vez na casa de um amigo no Japão. O alemão foi contaminado pela batida do violão e o tom da voz de João.

O curioso é que Fischer não veio ao Brasil em busca do aclamado sucesso nacional e internacional “Garota de Ipanema”, de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, mas da música de João Gilberto.

Fischer traçou os passos do músico no início da carreira, inclusive tocando e cantando em um banheiro em Diamantina, MG, cidade pela qual João Gilberto passou quando viajou pelo Brasil. Além disso, experimentou o seu prato favorito, visitou os locais onde, segundo sua pesquisa com amigos e conhecidos, João costumava visitar e conversou com importantes nomes da Bossa Nova. O jornalista descobriu que João Gilberto vive atualmente no Rio de Janeiro recluso em um apartamento, onde troca o dia pela noite e toca violão cerca de dez horas por dia.

O fato é que “Ho-ba-la-lá” mostra o quão misterioso é João Gilberto. Quanto mais sabemos sobre ele, menos o conhecemos, menos o entendemos e mais queremos saber...


Pouco tempo antes da publicação do livro, Marc Fischer se suicidou, por razões desconhecidas, conforme me contou o Sr. Carlos.



O livro é um prato cheio para os leitores que gostam de Bossa Nova, João Gilberto, Rio de Janeiro e boas histórias. Fiquei muito mais curiosa pela vida e obra do coração da Bossa Nova e com uma vontade absurda de voltar a tocar violão. Deve ser o efeito João Gilberto que, de acordo com Menescal em depoimento que embasou um capítulo do livro, muda as pessoas.








Editora: Companhia das Letras


Autor: Marc Fischer


Tradução: Sergio Tellaroli


Número de páginas: 184